De carona com Emerson Fittipaldi “Todos os homens são iguais perante Deus”. Talvez fosse essa a resposta do piloto e empresário Emerson Fittipaldi, cristão praticante há 10 anos, caso eu verbalizasse o que já estava estampado no rosto: a emoção em pegar uma carona com o bi-campeão mundial de F1, bicampeão mundial de Indy, duas vezes vencedor das 500 Milhas de Indianápolis, proprietário da equipe brasileira na A1GP, 46 anos de pista.
Piloto fala da surra com cabo de vassoura ao retorno às duas rodas
No seu escritório, em São Paulo, o piloto nos recebeu com o filho de quase dois anos no colo. Os gracejos de pai-coruja o tornam mais humano, mas não menos Fittipaldi. O que será – depois de tantas conquistas profissionais e pessoais – que ele ainda falta fazer para surpreender a si mesmo?
Em 1976, Emerson teria dito à escritora Clarice Lispector: “pretendo ser mais competitivo, com um carro novo e uma reestruturação de equipe. Este é o meu objetivo para 1977.”
Trinta anos e muitos títulos depois, o piloto continua nas pistas e investe em uma modalidade que teve de abandonar ainda adolescente, depois de levar uma surra de cabo de vassoura dada pela mãe.
Surra e outras histórias – O Pajero prata nos espera. A carona é um privilégio, já que Fittipaldi dirige cada vez menos na cidade. “Não tenho paciência, prefiro que alguém dirija para mim”. O carro, muito organizado, reserva poucas surpresas. No porta-luvas, muitos papéis, provavelmente documentos do carro. No console central, uma pilha de CDs liderada pelos melhores sucessos da banda sueca Abba.
Surpresa mesmo ficou por conta da lateral dianteira do Pajero: ralada! “O que houve com seu carro?”, perguntamos. Sem matar nossa curiosidade, o piloto revela que é péssimo com marcha-ré. “Uma vez, em Miami, tinha acabado de ganhar um Mercedes-Benz zerinho. Quando dei marcha-ré, acabei com a traseira dele em uma pilastra de concreto. E não foi a única vez”, lembra, rindo.
Mais motivo de riso foi lembrar-se da surra de vassoura que levou da mãe depois de quebrar uma promessa. Aos 13 anos, Emerson já corria numa moto de 50cc. Quando, aos 16 anos e escondido dos pais, competiu numa de 250cc foi o fim da carreira sobre duas rodas.
“Depois da corrida, fui para casa com um amigo. Senti que o clima estava meio estranho, por isso pedi para ele ficar mais um pouco. Jantamos. Depois que ele foi embora, minha mãe me perguntou por onde eu tinha andado. Respondi que estava velejando. Ela, que já sabia da competição, pegou um cabo de vassoura e me deu uma surra. Nunca mais corri de moto”.
Após três décadas, a motocicleta volta a fazer parte da vida do piloto. Além organizar o Salão da Motocicleta de São Paulo (de 21 a 26 de outubro) com a Megacycle e a Anfamoto, Fittipaldi liderou o 1º Moto Passeio da cidade de São Paulo, realizado ontem pela manhã.
“Nosso objetivo é aumentar a conscientização pela segurança no motociclismo. Cuidados básicos podem evitar acidentes com o motociclista, pedestres e outros motoristas. Entre eles: ajustar corretamente os retrovisores, usar o capacete amarrado, manter o farol aceso o tempo todo, usar calça adequada de modo que ela não atrapalhe com os pedais e habituar-se a sinalizar com as mãos. Na Europa, esse recurso simples já é muito comum”, alerta Fittipaldi.
Para os motociclistas que gostam de acelerar, Fittipaldi aconselha escolher lugares mais apropriados do que as ruas e avenidas. “A cidade tem muito buraco. Se passar por um deles em alta velocidade, você pode sair voando. Para quem gosta de correr, o ideal é se filiar a algum clube de motocicleta, o que possibilita andar no autódromo de Interlagos, por exemplo.”
Pressão – Na torcida por Felipe Massa, Fittipaldi confessa que, ao contrário do que muitos pensam, correr em casa não é nada fácil. “A pressão é muito maior. A gente tem que dar conta das expectativas da família, dos amigos, dos patrocinadores e da imprensa. Para mim, as corridas mais difíceis eram as que aconteciam no Brasil.”
A receita do piloto para se manter equilibrado é cuidar do físico, da mente e da espiritualidade. Adepto da medicina chinesa, que lhe devolveu à vitalidade e o peso que ele tinha em 1972, da prática religiosa e do que chama dos “três ‘erres’: respeito por si, respeito pelo outro e responsabilidade”, Fittipaldi garante: “não desista quando tiver problemas. Ainda que venha o pensamento: ‘isso só acontece comigo’, não o escute. Todos nós temos problemas a superar.”
Texto: Adriana Bernardino
Fotos: Mario Villaescusa/divulgação